segunda-feira, 11 de maio de 2009

Bilhete único – A culpa é sempre sua – do povo.

A culpa é do contribuinte, do usuário, ou melhor, a culpa é sempre do otário do povo. O povo sou eu, é você, somos nós. Vamos ao fato:
Toda manhã, bem de manhã, embora o céu sereno, eu sempre creio que o dia será lindo e radiante, sem a mais tênue ameaça de que um temporal possa desabar. Essa manhã, a procela bramiu forte na minha vida de povo. Um raio atingiu o meu peito com toda a violência da natureza. Em segundos, tudo escureceu, ou melhor, voltou à normalidade. Fui salvo da descarga elétrica pelo meu cartão único pendurado ao pescoço. Muito bem, lá fui eu, feliz por estar vivo, apesar de trabalhador classe “dalits”, desci a escada rolante da estação do metro brigadeiro e calquei o meu cartão único na catraca. “Surpresa!” Bloqueado. Intocável? Não! Bloqueado. Você está bloqueado, bloqueado,...
Como assim? Bloqueado? No caixa do bilhete único me informaram que, realmente, o meu bilhete único estava bloqueado. Fui encaminhado para uma agência do SPTRAN. “Surpresa”. Outra surpresa.
- O senhor fez uma ligação para o “0800...”, ontem às cinco horas da tarde e solicitou o bloqueio do seu cartão único.
- Eu? E por que faria isso, se eu não perdi o meu cartão? E como podem afirmar que se tratava da minha pessoa?
- Solicitamos a confirmação dos seus dados cadastrais e o senhor nos confirmou.
- Sinto desapontá-la, senhorita, mas eu não telefonei para o tal 0800, e não solicitei o bloqueio do meu cartão. Por favor, poderia desbloquear?
- Claro, senhor, mas será descontada a importância de dezesseis reais. Taxa de custo de sistema.
- O que? O que? O que? Alguém liga para o sistema e pede para bloquear o meu cartão, sem o meu conhecimento, e depois eu ainda tenho que pagar para desbloqueá-lo? A culpa é minha?
Coloquei em dúvida a eficiência do sistema – “o sistema não poderia ter errado, recebido um comando indevido, voluntário ou involuntário?” Mesmo assim, a funcionária me disse que eu devia pagar. “Alguém da minha empresa, um adversário, um ex-colega de trabalho, com o intuito de me sacanear, não poderia ter se passado por mim?
- Claro senhor! Isso é perfeitamente possível, mas mesmo assim, o senhor tem que pagar a taxa para desbloqueá-lo.
Solicitei um encarregado e não demorou, a funcionária voltou com a encarregada, Dona Geralda. Disse a ela que eu me sentia totalmente inseguro com o sistema do bilhete único; que se eu tivesse que pagar essa maldita taxa, eu levaria o caso pro PROCON, pra mídia, pra internet; que eu enviaria e-mail pro Prefeito, pro Governador, pro Presidente...
- O senhor esta no seu direito. Eu lamento não poder fazer nada para isentá-lo dessa taxa. O sistema já absorveu os nove reais e oitenta centavos de crédito que o senhor possuía no cartão, e o que vou fazer, pelo senhor, é efetuar a liberação do cartão, mas o valor debitado, o senhor já perdeu. Muitos usuários esquecem o cartão em algum bolso do paletó e pede para bloquear o cartão, mas quando o encontra, alega, em alguns casos, que não solicitou a medida de segurança. Tudo para se livrar da taxa. Reconheço que não é o seu caso, mas o sistema não tem outra solução para essa questão. – A Dona Geralda era calma, preparada para atender casos como o meu. Não aceitou as minhas provocações, manteve-se calma e eu até fui com a cara dela, mas protestei assim mesmo.
“Serei sempre culpado, se o meu cartão for bloqueado, não é mesmo? Não importa a existência de verdadeiros culpados anônimos. Se alguém se passar por mim ao telefone – a culpa é minha; se um digitador do sistema errar no dedo – a culpa é minha; se alguém roubar o meu cartão e eu alertar o sistema – a culpa é minha; se..., bem, a culpa é sempre minha. Quem manda ser povo? Ou dalits?
Sai do SPTRAN da rua quinze de novembro, levando sobre o peito, um novo cartão, mas, lá dentro desse mesmo peito, batia um coração frustrado, impotente, se apertando, sofrendo as dores de uma desilusão "municipalestadual".
Josué

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