sábado, 28 de novembro de 2009

Homenagem póstumas aos poetas: Elisa Barreto e Paulino Rolim de Moura

Jornal Gazeta Penhense
Elisa Barreto


“Poetisa Elisa Barreto sofre acidente em casa.
A poetisa Elisa Barreto, tradicional moradora da Penha, sofreu uma queda, dia 10, em sua residência, tendo que ser internada no Hospital do Servidor para se submeter à uma intervenção cirúrgica.
A poetisa fraturou o fêmur e foi operada no dia 11, informou o escritor Paulino Rolim de Moura, seu marido. Na semana passada, os dois estiveram no centro da Penha, fazendo uma foto defronte ao Edifício Santa Amália, para um suplemento especial do jornal Diário do Comércio. O casal se conheceu em 1951, durante um baile de inauguração daquele prédio, se casaram e estão juntos até hoje. A festa foi muito concorrida e marcava a inauguração do primeiro edifício com mais de 3 pavimentos no bairro. Embora com mais de 80 anos, Elisa Barreto continua a produzir poesias de alta qualidade, além dos 9 livros publicados, sendo uma das inscritas para o Prêmio Nobel de Literatura deste ano.”
No último dia 6, sábado, ela enviou sua última produção para nosso jornal:

O TREM QUE PASSA

Ser como nuvem que passa
ou como a estrela que cai
é ter a divina graça
que de um polo a outro vai.

Ser como o trem de carreira
que ao longe na curva apita
e enfeita a planície inteira
com o eco de sua grita.

Ser como o Mar traidor
e lutar contra a maré;
o seu eforço dá flor
e você mostra quem é.

É preciso ser alguém
Não deixe a vida passar
porque sempre passa o trem
que a gente deve pegar. "

Redação - 16-03-2004 - [412]

***
Foi uma frustração descobrir que eram meus vizinhos há muitos anos e não nos conhecemos. A poetisa Elisa passou muitas vezes pela rua da minha casa, como uma pessoa comum. É frustrante imaginar, que se eu a conhecesse antes, não a teria deixado em paz com a minha ansiedade literária.
Felizmente conheci o seu marido, Paulino Rolim de Moura, escritor e grande defensor da Poesia lírica. Ele já estava na casa dos 80 anos de idade. Nossa amizade durou, aproximadamente, 3 meses, mas foi o suficiente para aprender muito sobre Poesia. Aprendi a compor sonetos e trovas. Acho que depois disso, criei coragem para mergulhar no Cordel. Durante cinco décadas ao lado de Elisa, Paulino procurou dedicar-se a promoção da carreira poética dela. Foi uma bela história de amor e poesia. Todos os finais de semana eu descia a calçada da rua da minha casa e batia na porta de Paulino. Sabia que não havia muito tempo. Paulino não viveria um ano sem a sua musa. Numa bela manhã de domingo, Paulino me telefonou e convidou-me pra almoçar em sua casa. Lá estava eu novamente, sorrindo com ele, folheando os livros de Elisa, tomando um vinho ao lado de uma feijoada. Meu Deus! Feijoada! E ele só tinha 80 e poucos anos. Foi o melhor dia de todos, em que estivemos juntos, mas também foi o último. Paulino partiu para encontrar a sua poetisa. Pensei em quantos corruptos, vampiros das almas inocentes que poderiam partir desse mundo, para que o mundo fique melhor, mas Deus leva um poeta para deixar o mundo pior. Não conheci Elisa pessoalmente, mas sei que Paulino falou de mim, quando a encontrou. No final, todos nós, os poetas, nos encontraremos nesse paraíso dos poetas.
Paulino tentou transformar-me em um poeta lírico, mas eu me tornei um poeta Cordelista.
Obrigado Paulino, se depender de mim, vocês serão sempre lembrados.

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