segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Salomé Parísio - Sonhos de uma vedete

A vedete, cantora e atriz Salomé Parísio, pseudônimo de Dulce de Jesus Oliveira, nasceu em Pernambuco, na cidade de Bonito, em 3 de junho de 1921.É de uma família com oito irmãos, três homens e cinco mulheres, todos cantores. Começou a cantar na Igreja, foi “filha de Maria”, e quase “freira”.Em Recife, PE, começou a carreira na Rádio Club de Pernambuco, onde foi vencedora do programa de calouros. Depois do sucesso em Recife, viajou para Bahia, onde permaneceu por cinco anos e onde nasceu seu único filho. Lá, recebeu um convite para trabalhar no Rio de Janeiro.Gianca de Garcia, diretor artístico do Cassino da Urca, resolveu levar Salomé Parísio ao Teatro de Revista, com todo o elenco da Urca. Mandou buscá-la em Salvador para estrelar a peça “Um Milhão de Mulheres”, estrondoso sucesso de 1947. Naquele teatro, fizeram três revistas.Depois, foi para São Paulo e lá ficou. Trabalhou no Teatro Santana e fez filmes com Mazzaropi. Fez enorme sucesso como estrela-atriz-cantora na revista Prato do Dia, onde dividia o palco com o comediante Colé e Virgínia Lane. O Brasil estava se tornado pequeno para ela. Em 1950, Salomé Parísio excursionou por Portugal e abalou o Cassino do Estoril. Em 1952, de novo o país se dobrou a ela com "Pra Lá de Boa", dirigido por Lulu de Barros. Em 1955, as pernas de Salomé Parísio renderam páginas na Argentina, onde fez longa e milionária excursão. Depois, Salomé Parísio foi para os Estados Unidos (Nova York), onde recebeu um convite para substituir Carmem Miranda. Mas, teve que voltou para o Brasil porque sua mãe ficou muito doente. Salomé largou tudo para cuidar da mãe.De volta, fixou-se em São Paulo, fazendo shows, trabalhando nas rádios Tupi, Bandeirantes, Record e Nacional. Chegou a Nova Iorque em 1960, em grande estilo, no Rádio City Music Hall, dirigida por Carlos Machado. De volta ao Brasil em 1962, estrelou "Um Violinista no Telhado", onde cantou as canções judias. Fez programas de rádio, TV, novelas, outras revistas picantes até 1980, quando recebeu um convite do Antunes Filho para fazer a peça “Macunaíma”. Com o espetáculo viajou por todo o Brasil. Depois, o elenco partiu para o Festival Mundial do Teatro em Nancy, Paris, onde alcançaram o primeiro lugar.Com "Macunaíma", excursionou por doze países. No teatro, Salomé Parísio fez “Violinista no Telhado”, “Dilúvio”, dentre outras peças. Na televisão, atuou na novela “Sangue do meu Sangue”, de Vicente Sesso.Em 1981, uma nova geração a descobriu no histórico musical "Aí vem o Dilúvio". Os freqüentadores das feiras livres e dos supermercados no bairro do Centro, arredores da Igreja da Santa Cecília, em São Paulo, sempre se perguntam quem é aquela exótica senhora sorridente, falante e cheia de bom humor que circula com invejáveis mais de 80 anos e pernas ainda bonitas. Os anos passaram, Salomé, continua trabalhando: dá aulas de canto e regularmente canta a Ave Maria de Gunot em casamentos com sua voz ainda maravilhosa. Vive sozinha em um confortável apartamento no centro da cidade. Seu último show foi uma homenagem 2003 no Teatro Itália, a "Sonhos de Vedete". É a última vedete viva pioneira do teatro de revista brasileiro, ainda em atividade. Todas as outras sobreviventes estão há muito aposentadas: Virginia Lane, Maria Quitéria, Dorinha Duval, Lady Hilda, dentre outras. Salomé diz que, "por ter feito pouca televisão após 1970 sou pouco popular hoje. Preferi viajar o mundo. Nem tudo são flores e tenho muita saudade de meu único filho que morreu jovem", conta, sem entrar em detalhes. Salomé Parísio tem cinco netos e quatro bisnetos.
Fontes: Site Ovadia Saadia; Youtube. SESC.

Recentemente, conheci Dulce (Salomé Parísio), em sua residência.

Trabalho nas ruas de São Paulo a serviço de uma Administradora de Imóveis, no palco de uma das maiores cidades do planeta. Sempre nas ruas, felizmente, visitando prédios e aptos vazios. Às vezes, no Centro, no bairro dos jardins ou na periferia. Hoje estive próximo ao largo do Arouche, na rua Frederico Steidel. Uma pequena rua, dessas que não se deve passar pelas calçadas depois do ocaso. Um só quarteirão, mas ali, se concentra grupos de apreciadores de drogas, catadores de lixos, moradores de ruas, mas também, encontrei o Zé do Caixão que, segundo me informaram, mora em um apartamento de um dos pequenos prédios da rua. A minha vistoria era num apto de um desses minúsculos prédios.
No final da vistoria, o zelador me pediu para subir ao apto de uma senhora, que estava interessada na locação. Após 11 anos, o proprietário pediu para ela, uma senhora de 84 anos, esvaziar o apto. “Oh! Que coisa triste! Vou falar com ela, sim.” Imediatamente, subi e adentrei ao apto da senhora. Ela não estava preparada para receber visitas. Havia um corte sobre o seu lábio superior, mas os olhos pareciam dois espelhos da eternidade. As suas pernas de mais de oito décadas, conservavam um contorno especial, tanto que provocou em mim, um belo pensamento – “essas pernas devem ter sido muito belas”.
Conversa vai e conversa vem, e ela me diz que desejava locar o apto no térreo, para continuar a morar no mesmo prédio. Afinal, foram 11 anos naquela região. “Eu sou atriz e cantora! Salomé, você não se lembrar de mim?”
Fiquei sem graça, pois não me lembrava de nada relacionado a ela. Pensei que ela fosse maluca, mas era muito simpática e muito consciente do que falava. Gostei dela, assim de graça. Talvez pelo jeito dela, ou pela alegria que em certos momentos, eu apreciava nas janelas da sua alma. Ela não parecia um ser comum. Dei-lhe as instruções para tentar viabilizar a locação do apto vazio, e me despedi.
Em casa eu fui direto para o deus Google. Meu Deus! Ela era real! Muitas fotos antigas, reportagens que mencionavam a beleza das suas pernas, quando encantou a argentina. “Eu tinha razão quanto às belas pernas”. Li tudo que havia e assisti a vídeos e fiquei chocado. Aquela mulher não devia estar tentando locar um simples apto, e ainda mais, naquela rua. Deus dá uma vocação - um talento - para uma pessoa brilhar como um cometa de Halley, e então, essa pessoa usa o poder do seu talento para sair do anonimato, salvar a sua família, encantar as pessoas, satisfazer o prazer da sua própria alma e, no final, o seguro da velhice esta vencido. Não há garantia de uma velhice digna para quem viveu pelas leis do seu coração e da sua alma. Para quem usou o coração no lugar do cérebro. Quem nasce com talentos artísticos, esta condenado a ser um escravo do seu próprio talento. Para essas pessoas marcadas pela alma, está fora de cogitação, a luta pela sobrevivência. Pelo menos, seguindo uma das profissões normais do sistema financeiro que garanto, sucesso e realizações rendosas. A pessoa é levada por uma força interna a seguir a sua vocação artística: um caminho árduo e sem garantia de sucesso. Às vezes, o sucesso é pleno e a pessoa pode ser vista como um semideus, às vezes brilha muito e cai no esquecimento, mas na maioria, não se chega a lugar algum e passa-se toda a vida. Uma vida toda correndo atrás de exteriorizar algo que jamais encontra um espaço para atuar.
Quando um filho nasce com inclinações, definidas, para a construção de prédios, a sua vida é uma estrada reta, limpa e sem barreira. Pode-se afirmar com absoluta convicção, e de antemão: “Ele será um engenheiro.” É só seguir todas as etapas já definidas e conhecidas até ser diplomado. Mas o seu filho não gosta de nada que não tenha um palco! O que você pode garantir para ele? O talento será tão especial que o levará ao sucesso de qualquer forma? Na verdade, ter algum talento artístico, é a certeza de caminhar, tateando, sobre uma estrada escura, para um futuro incerto.

Voltei ao lar de Salomé.

Duas semanas depois, voltei ao apto de Dulce para informar-lhe que o tal apto vazio foi alugado; que eu lamentava por ela não ter conseguido locá-lo. Ela abriu as portas com a mesma simpatia de antes. Disse-lhe, que sabia quase tudo sobre ela, porque pesquisei na internet. Ela reagiu com surpresa - Internet? Sim, minha querida! Você esta na internet; a sua vida esta na internet!
Dulce nunca navegou na internet e não possuía computador. Dessa vez a conversa foi mais longa e interessante. Ela me contou muitas coisas, mas só ficou triste quando contou da última vez que pisou no palco.
Ela ainda trabalhava, apesar dos seus 84 anos, mas havia sofrido um acidente onde cortou o lábio superior, impedindo-a de cantar. Faria uma cirurgia de reparação para breve. Dulce se acomodou no velho sofá e começou a falar: “Eu fui ao restaurante para apresentar a minha peça: “Sonho de uma vedete”. Um teatro adaptado num espaço reservado de um restaurante do bairro Santa Cecília. Levei as minhas roupas de trabalho e encontrei as companheiras de palco. Elas estavam sem ânimo porque havia 8 pessoas que havia comprado os convites. “Vamos apresentar para as oito pessoas” – disse as minhas companheiras - mas elas convenceram a responsável pelo espaço, a cancelar o espetáculo. Eu já estava vestida, fui a frente e expliquei para aquelas pessoas, que voltassem com os seus convites no próximo espetáculo, mas que, antes, eu cantaria uma música para eles. O pianista deu a introdução e eu comecei a cantar. Pensei na minha vida passada, como os portugueses ficaram encantados comigo, os argentinos, e o público de tantos países... Lá em Pernambuco quando perdi o noivo, porque fui cantar na radio e ganhei o concurso. Como depois daquele concurso tudo mudou e eu consegui ajudar a minha família. Quanto glamour!
Agora, depois de oito décadas da minha vida, eu canto para oito pessoas. Vi de relance que as minhas companheiras passavam pelos fundos em retirada, e a voz fraquejou. Meu Deus! Senti que iria desmoronar ali no palco, no exato momento em que percebi na parede um quadro de um santo. As lágrimas insistiam em sair e os olhos do santo pareciam brilhar. Aproximei da parede e firmei as duas mãos sobre o quadro até terminar de cantar. As lágrimas rolaram de vez, sobre o aplauso das oito pessoas. Aos meus ouvidos, soaram como aplausos de uma multidão.
Salomé me contou tudo isso, ou foi o que eu entendi e guardei na memória, e não resistindo as lágrimas, mais uma vez. Ela foi ao quarto e trouxe o seu “DVD – Documentário”, para presentear-me. Abraçamos fortemente, levados pelo clima do instante. Eu a deixei com as suas lembranças e os seus troféus, que decoravam uma mesa no canto da sala.

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