quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Diário Crítico

Cutucando a onça com vara curta

“Relembro outra vez: eu tinha meus quatorze anos, quando um empurrão violento me atirou de encontro aos livros. Na sala de aula, o professor de Português tomou minha composição para exemplo de como todos nós seus alunos escrevíamos irremediavelmente mal. De pé, ao lado da cátedra, ouvi a catilinária sem esboçar nenhum protesto, porém, ao me sentar, sob o deboche geral dos colegas, jurei a mim mesmo que aquilo não iria ficas daquele jeito, não. E não ficou. Passei a ler muito, acostumando-me a refletir sobre as palavras que lia, vendo-as como potências vivas para o que eu queria dizer. Não demorou muito, e o mesmo professor, em frente à mesma turma, ao comentar uma nova composição minha, disse que eu havia nascido com a pena e que seria glória nacional. Claro que eu não havia nascido com a pena, nem me tornei glória nacional. O pouco que alcancei realizar, oi sempre fruto de muita luta para aprender a fazer.
“Foi assim que aprendi a escrever, lendo a Bíblia, disse uma vez Ernest Hemingway, mas eu não aprendi a escrever lendo apenas a Bíblia. Descobri que ler era divertido e escrever muito mais. Aprendi com meus próprios erros, porque só aprendemos errando, porque a vida sempre traz em si o certo e o errado, e a nós cabe escolher a melhor saída. Para minha sorte, na época, caiu-me nas mãos um artigo sobre Descartes, em que eram dadas a suas quatro regras básicas: 1º) que se deve partir sempre do mais fácil para o mais difícil; 2º) que se deve dividir cada uma das questões que vamos enfrentar por etapas; 3º) que não devemos aceitar nada como verdadeiro sem antes procurar vê-lo como tal; e 4º) que devemos fazer uma enumeração completa de tudo, para que possamos ter a certeza de ter compreendido realmente o assunto. Esse foi o meu método de trabalho ao longo das vida, mesmo que, mais de uma vez, tenham me dito que o cartesianismo estava superado, A primeira vez foi naquela mesma ocasião, quando um professor me disse que eu deveria tomar como modelo uma filosofia mais moderna. Quando eu lhe perguntei qual, ele ficou de me dizer na próxima aula, mas nunca mais tocou no assunto. Assim, preferi ficar com descartes mesmo, e não me arrependi. Foi com ele que aprendi a seguir a minha própria intuição.
Alguém disse um dia que todo mundo sempre se julga capaz de escrever um livro e comandar um exército numa batalha. Talvez por isso existam tantos livros ilegíveis e tantas guerras perdidas. Fundamental que se aprenda primeiro a arte de pensar, porque, afinal, a linguagem é uma forma de comunicação e a primeira obrigação de quem comunica é não dizer bobagem.”
Benedicto Luz e Silva
Escritor e Editor
***

O professor estava certo.

O meu mestre de literatura também levou uma bela cutucada, na sua juventude. A onça ficou arisca, razão pela qual, providenciou novas e eficazes medidas de proteção. Não creio que a dor da humilhação, possa transformar um artista em um cientista; um homem sem talento em um escritor de respeito, ou um cantor de sucesso, um artista plástico ou algo dessa natureza. Acredito que o talento é natural em algumas pessoas, mas parte dessas pessoas privilegiadas passa pela vida, sem jamais tomar consciência do seu próprio talento. Uma cutucada pode ou não despertar esse talento que já existe, ou não, dentro das pessoas.
“...disse que eu havia nascido com a pena e que seria glória nacional.”
Aquele jovem havia nascido mesmo com a pena e alcançou a glória nacional.
Benedicto Luz e Silva, aquele garoto que foi cutucado pelo professor, se tornou Escritor e Editor. Venceu um concurso nacional - 1º lugar (Medalha de Ouro) no segundo concurso para a outorga do “PRÊMIO NACIONAL CLUBE DO LIVRO” com o livro: “Um corpo na chuva” – Romance com 150 Páginas. Editora Clube do Livro Ltda – 1972.
Vencer um concurso nacional de literatura, não é alcançar a gloria nacional?
Josué Gonçalves de Araújo
Escritor e Poeta Cordelista

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