domingo, 8 de novembro de 2009

A Caravana do Cordel – A fênix da literatura popular

Nos anos 60, me lembro muito bem, quando em plena colheita de algodão, os bóias-frias cantavam as músicas sertanejas para espantar o desânimo, infligido pelo calor do sol a pino. Eu era um deles! Às vezes dava uma pausa para retirar um espinho de carrapicho que se infiltrava na minha coxa. Um sol arretado de quente fazia os espinhos saltarem sobre a pele dos pobres bóias-frias. Alguém cantava uma musica de Tonico e Tinoco e outro alguém, algumas ruas de algodão mais adiante, fazia a segunda voz. Eu achava lindo e triste. Lindo porque gostava de uma boa música e triste porque começava a sonha em como evadir-me daquela maldita vida agrária. Ao crepúsculo, todos subiam na carroceria de algum caminhão e retornava a cidade. Uma cidade de uns 16.000 habitantes no Pontal do Paranapanema. Na cidade, a noite, os adolescentes, como eu na época, se reuniam no jardim. A onda era jovem guarda. Musicas caipira, sertaneja ou coisa do gênero não era, nem comentada entre os jovens, a não ser com ares de deboches. Tínhamos vergonha de cantar entre nós, qualquer música sertaneja. Isso não quer dizer que ela não estivesse enraizada em nós. Mas quando surgiu o grupo dos “amigos da música popular sertaneja” – Chitãozinho e Chororó, Leandro e Leonardo e outros, a musica sertaneja caiu, também, nas graças da juventude. A música sertaneja renasceu com toda força e assumiu o seu verdadeiro lugar no cenário musical brasileiro. Os músicos da nova geração sertaneja ficaram ricos e a velha guarda recebeu as honras e o reconhecimento moral. Vejam o caso da famosa dupla sertaneja, Tonico e Tinoco, que envelheceram empobrecidos.
E o Cordel? Pois é! Naquele tempo da minha infância, quase adolescente, minha avó não se cansava de me contar as histórias dos cordéis, tais como: João Acaba mundo e a Serpente negra, O Pavão Misterioso, os três cavalos encantados e outros. O meu vizinho, ex-professor, que bebia muito, em razão de ter sido corneado pela esposa, segundo ele mesmo, vendia livretos de cordéis pendurados em barbantes, no centro da pequena cidade, ainda sem asfalto, sem energia elétrica e sem televisão. O tempo passou e eu me tornei um paulistano na luta pela sobrevivência e o cordel ficou, engavetado dentro do meu ser.
Trabalhando pelas ruas da Capital, eu encontrava os livretos de cordéis em uma única banca no largo do Paissandu. Uma vez ou outra, comprava um livreto para reler e relembrar da minha avó e do pobre corno que nos momentos de sobriedade, viajava nos versos do cordel.
Escrevi e editei dois livros: um romance de 187 páginas que me rendeu algumas palestras em academias de escolas municipais e um livro de contos e crônicas. Foi então que, de repente, surgiu uma pergunta na minha cabeça: “Por que não escreve um livreto de Cordel?” Por quê? Histórias eu já havia criado em prosas e muitas já tinham a cara dos cordéis. Escrevi o meu primeiro cordel. Na mesma semana, nas proximidades da estação metro Jabaquara, eu entro em um sebo e dou de cara com muitos livretos de cordéis. Quem estava batendo papo por acaso com o dono do sebo? O proprietário da editora Luzeiro que comprou a editora Prelúdio que editava os cordéis da minha infância. A conversa foi sem futuro ou quase porque eu pensei em desistir do assunto – editar livretos de cordéis. Mas a cada dia eu percebi a presença de livretos se espalhando pela cidade. Decidi aceitar o convite do editor e visitei a editora Luzeiro, onde fui muito bem recebido. Vi com muita alegria os títulos dos velhos livretos da minha infância na sala de museu da editora. Conclusão: Vai sair o meu primeiro livreto.
Descobri a Caravana do Cordel. Um movimento que começou com sete participantes e vem crescendo e crescendo... Tenho participado de alguns eventos da literatura popular, patrocinado por esse movimento e confesso, estou completamente apaixonado pelo cordel. Cheguei à minha casa um dia, com o cordel na cabeça, ansioso pela demora da edição do meu livreto e sentei-me a mesa:
“Minha esposa querida
Eu acabo de chegar
E estou com muita fome,
Você já fez o jantar?
Como a mulher não estava de bom humor, completou a minha estrofe:
Meu pretenso Cordelista,
Seja mais um realista,
E me ajude a cozinhar.

Na verdade, eu penso que da mesma forma como a musica sertaneja renasceu com toda a força e, assumiu as primeiras posições nas paradas de sucesso, assim pode estar acontecendo com o Cordel no Brasil. E o Cordel envolve, além da “Literatura popular”, a música dos violeiros. Os estudantes das escolas e universidades, cada vez mais, têm demonstrado interesse pela literatura de Cordel. Farei tudo para ser um surfista Cordelista e pegar carona na crista dessa onda.



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