sábado, 10 de outubro de 2015

MACUNAÍMA - O herói sem nenhum caráter (Cordel) - Adaptação: Josué G. de Araújo

Foto: Encontro com Pascoal de Conceição que subiu ao palco do auditório da Academia Paulista de Letras para encerramento das homenagens a Mário de Andrade, realizados pelas Academias estudantis de letras das escolas, com apoio da secretaria municipal da educação.

Minhas homenagens em Cordel:
Setenta anos 
sem Mario de Andrade
(Josué G. de Araújo – 09/10/2015)


“Garoa do Meu São Paulo”   
Projete Mário de Andrade
E as cenas da Pauliceia
Com sua modernidade,
Para eu compor um Cordel
Contando só a verdade.
      
Mario de Andrade nasceu
No ano noventa e três,
Lá no século dezenove.
Repleto de altivez,
Foi “um escritor difícil”,
Brilhando na “escuridez”.

Aos dez anos de idade
Fez um poema-canção,
Mas a mãe fez um muxoxo
Com a primeira criação.
Isso não atenuou
Seu ânimo na vocação.

A torre da velha era,
Mário não a implodiu,
Contudo, outra imponente,
Sobre os ombros, erigiu: 
As bases do modernismo
Que a Pauliceia aplaudiu.
  
O passado para Mário
É espelho, reflexão,
Mas jamais um instrumento
De uso e repetição.
Para frente é que se anda,
O novo é evolução!

“Meu São Paulo da garoa”,
Mário é verbo intransitivo,
Completo sem complemento,
Futurista, intuitivo.
Pauliceia Desvairada
É obra desse inventivo!

As obras falam por si:
Moda: “Viola quebrada”  
Livro: “Lira Paulistana”.
Sua obra consagrada,
“Macunaíma”, o herói,
Nas telas, foi projetada.

Nos versos do Futurista,
Poeta Mário de Andrade:
 “Ver arte contando história,"
“São glórias desta cidade. ”

Quando um povo não tem glória,
Arte é celebridade!

Carente de ser amado,
Impunha-se combativo.
Intelectualmente, o Mário
Foi um ser hiperativo:
Sua alma, sua arte,
Polêmico e criativo.
  
Decepção na política,
Amargura e injustiça,
Vislumbre do ”mal du siècle”.
Sorriu do: "Ai, que preguiça!"
E na torre de marfim
Encontrou sua própria liça.

Vinte e cinco, nesse dia,
No verão em fevereiro
Do ano quarenta e cinco,
Nós perdemos o guerreiro:
O Alfa do modernismo
No Brasil do brasileiro.

Da nossa literatura,
Alguém disse uma verdade:
Morte semelhante a essa,
Íntegra em acuidade,
Só de Machado de Assis,
Pleno em genialidade.

Fui Brás Cubas, Dom Casmurro,
Do mestiço pioneiro.  
Vi a invasão da saúva
Com ferrão de cangaceiro.
Vi crescer Macunaíma
Com a cara de brasileiro.

O Cordel é interessante,
Literário com certeza.
Apesar de secular
Com regras, rima e beleza,
Não adentrou à elite
Por nascer entre a pobreza!

Nosso Cordel Brasileiro
Nascido na Paraíba,
Leigos dizem que é “estranja”,
Bagagem do caraíba!
Chamam macaco de “singe”,
“Mas não sabem o que é guariba? ”

O Poeta é inserido
Pela arte do destino
Que a vida lhe atribui,
Na idade de menino.
Se a poesia o escolhe
É arranjo do divino.

“Meu São Paulo da garoa”,
Já se passaram setenta,
Dos verões sem o poeta.
Nosso povo, ainda, tenta
Vencer esse Jereré
E livrar-se da tormenta.

Setenta anos sem Mário,
O poeta modernista,
As saúvas majoraram,
Sem o carão do romancista!
Também, verso, rima e métrica,
Tem se ampliado na lista.

Oxalá, que a Pauliceia,
Mais outro Paulista invente
Com verve igual a de Mário,
E o espírito eloquente,
Que nos livre do marasmo,
Renovando o presente!
***
Hoje dia 09 de outubro comemora-se o aniversário de Mário de Andrade. Após os 70 anos da sua morte, resolvi fazer uma adaptação da sua obra: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

MACUNAÍMA - O herói sem nenhum caráter (Cordel)
Adaptação: Josué Gonçalves de Araújo

No fundo do mato-virgem,
Macunaíma nasceu
As margens d’Uraricoera.
Nenhum murmúrio, se deu
Quando a Índia Tapanhumas
Pariu o filho e gemeu.

Indiferente, ela olhava
Aquele negrinho feio,
Olhando torto pra ela
Com a cara de aperreio.
Chorou e ficou de pé
Tentando sugar-lhe o seio.

O nome Macunaíma,
Ima é “grande”, maku é “mau”,
Bom e mau, covarde e bravo...
Um elemento dual:
Sendo incapaz e capaz,
Faz o bem e faz o mal.

Já na sua meninice
Revelou a sua cobiça
Por todo e qualquer vintém.
O trabalho era injustiça,
Só quis falar com seis meses,
Quando disse: — “Ai que preguiça!”

“Dandá pra ganhar vintém”,
Só assim, era ligeiro.
Se lhe mostrasse moeda,
Qualquer forma de dinheiro,
A preguiça era esquecida,
Ele chegava primeiro.

Já antes da puberdade
Tinha sonhos infernais:
Maracutaia e mulheres
Eram temas naturais,
Não demonstrava respeito
Pelos princípios morais.

À noite lá no mucambo,
Perseguia as indiazinhas.
Dormia no macuru
Sempre dando as mijadinhas!
A mãe na rede, abaixo,
Sentia as gotas quentinhas.

Nos machos, a cusparada,
Mas os velhos, respeitava.
A murua, a poracê,
O danado frequentava,
Torê e bacorocô,
As danças, ele dançava.

O idoso Maanape,
Era o sábio feiticeiro,
Irmão de Macunaíma;
Jiguê, o irmão arqueiro,
Perdia as suas mulheres
Para o irmãozinho arteiro.

A esposa de Jiguê
Levou o piá ao mato,
Escanchado na cacunda,
Até a beira d’um regato.
Ao deitá-lo na taioba
Virou um moço pacato.

Sofará se encantou
Com a magia do cunhado.
As biguatingas voavam
Sobre o igarapé ao lado.
À noite, a mulher voltou
Com o piá aloprado.

...continua...Aguardem o lançamento!





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