sábado, 26 de março de 2011

Jornal A Tribuna - Batatais entrevista Josué sobre o assunto - Cordel

Eu fiquei satisfeito com a entrevista. Foi publicado exatamente tudo o que eu disse. Gosto de Batatais e agora já estou na história da cidade através desse jornal. Devia haver muito mais entrevistas sobre esse assunto. As pessoas não sabem o que é realmente cordel e principalmente as novas gerações. Vamos ver o que acontece nessa novela. Eu estou sempre a disposição para contribuir na divulgação dessa arte literária.
Agradeço ao Jornal, na pessoa do Jornalista Samuel e a Fany, também jornalista que viabilizou esse contato.

***

Posto abaixo o original da entrevista:

Perguntas enviadas pelo Jornal para serem respondidas:
Ao escritor cordelista Josué:
Tribuna
- Os Portugueses quando aqui chegaram introduziram a Literatura de Cordel, desde então essa arte tem passado por um processo de aquisição de identidade com características tipicamente Brasileiras, sendo difundida principalmente na região Nordeste do país. Como você analisa esse processo de transformação?
Josué - Não reconheço a origem do nosso cordel dessa forma. Segundo o professor Doutor Aderaldo Luciano, pesquisador do CNPq, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de O auto de Zé Limeira e coordenador editorial da Editora Luzeiro, a principal casa de publicações em cordel, “o nosso cordel, apareceu no final do séc. XIX, no Recife-PE, onde foi impresso e ganhou a forma poética que o distingue.” Há quem afirme que a sua origem se deu na Paraiba, talvez porque o seu criador, Leandro Gomes de Barros, nasceu em pombal/Paraiba em: 19/11/1865 e morreu em 04/03/1918. – Foi Leandro quem Criou, formatou, imprimiu e difundiu o cordel, na forma de expressão como se mantém até hoje. Pode-se afirmar que o Cordel que conhecemos é genuinamente brasileiro.
Literatura de cordel ou simplesmente, Cordel?
Ainda segundo a tese de Aderaldo, “Como sabemos, o termo “Literatura de Cordel” é dado aos folhetos porque eles eram expostos à venda dependurados em barbantes ou cordéis. Tal denominação já era usada em Portugal... (BATISTA, op.Cit.,p.XXIII)” Na verdade, eu nunca vi e nem ouvi dizer que alguém tenha comprado um cordel dependurado em algum barbante e preso com prendedores de roupas. Todas as folhas soltas e/ou livretos dependurados em barbantes, lá em Portugal, ficou conhecido como “Literatura de Cordel”, mas, se foi Leandro quem criou o nosso cordel e tornou impresso o primeiro livreto, então, lá nos barbantes (cordéis) de Portugal, não podia haver nenhum folheto com as formatações do nosso Cordel.
Tribuna - Como você encara a atual abrangência dessa Literatura nas demais regiões do país? É bem difundida?
Josué: Sobre a abrangência do Cordel nas demais regiões do país, não tenho informações estatísticas precisas a respeito. Dos cordelistas da geração atual, alguns são, também pesquisadores do Cordel como é o caso do professor Marco Haurélio, que lançou recentemente o livro: “Breve história da literatura de cordel” , João Gomes de Sá que lançou “Alice no País da Maravilhas em Cordel”, Varneci Nascimento que entre tantos livretos da editora Luzeiro, também lançou pela editora Nova Alexandria o clássico “Memórias Póstumas de Braz Cubas em Cordel”, o nosso Aderaldo Luciano mestrado e doutorado em literatura com tese em Cordel e outros grandes cordelistas incansáveis na difusão do nosso cordel. Eles tem viajado pelo nordeste, tem pesquisado e eventualmente, trazem notícias do Cordel e dos cordelistas do nordeste mas, creio que o movimento maior, tem sido mesmo em São Paulo. Há o movimento denominado “Caravana do Cordel”, criado por um grupo de cordelistas com o apoio da Editora Luzeiro, também o grupo de estudos: “Roda de Cordel” e outros movimentos.

Tribuna - Quando falamos em Cordel, também estamos falando da arte da xilogravura. Ambas as manifestações artísticas compuseram uma união perfeita. Qual a sua visão a respeito das ilustrações presentes no Cordel?
Josué: Cordel é Cordel e Xilogravura é outra arte. Há informações de que, após 50 anos da existência do Cordel brasileiro, alguns autores passaram a se utilizar de ilustrações de Xilogravuras nas capas dos livretos de Cordel. Hoje se contrata um artista para criar e desenhar capas, a mão ou através da informática e nem por isso o Cordel perde as suas características.
O hábito de apresentar o Cordel através da cantoria do repente e/ou da xilogravura é falta de total conhecimento das origens do nosso Cordel. Xilogravura é uma arte, o cordel é outra e a cantoria é outra. O repentista pode cantar um cordel já escrito; Também ele pode criar e escrever um cordel, mas o repente cantado e normalmente acompanhado por uma viola é produto do improviso. O Cordel não é improviso. O Cordel é: Métrica, ritmo, rima, estrofação, lírica, épica e drama...
Tribuna - A Literatura de Cordel tem assumido uma forte função social ao tratar de questões como a coleta seletiva e reciclagem de lixo, enfim, o respeito ao nosso meio ambiente. Como você avalia o impacto de temas como esses sendo tratados no Cordel?
Josué - Para essa pergunta vou me valer da resposta do Cordelista Varneci Nascimento da editora Luzeiro, um dos fundadores do movimento “Caravana do Cordel”, visto que ele procura escrever sobre os mais variados temas:
“Avalio que é muito importante, visto que, usando a linguagem do cordel pode-se atrair muito mais os leitores que normalmente são jovens e adolescentes. A musicalidade e a rima do cordel oferecem esse dinamismo e só agora essa linguagem bela e secular começa a causar um maior impacto em todos os âmbitos sociais. Hoje em dia a maioria dos temas transversais como os já citados, estão sendo trabalhados pela linguagem cordeliana com grande êxito.”

Tribuna - Acredita que Literatura de Cordel recebe a atenção merecida por parte da sociedade ou é tratada de maneira superficial, como por exemplo, nos estudos voltados à Literatura Brasileira?
Josué: Drumond, publicou no jornal do Brasil em 09/09/1976, a crônica “Leandro, o Poeta”, onde registrou: “...que a láurea de, “O príncipe dos poetas brasileiros” outorgado em 1913 a Olavo Bilac, a rigor só podia caber a Leandro Gomes de Barros, planta sertaneja vicejando a margem do cangaço, da seca e da pobreza.” E conclui: - "Não foi príncipe do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil em estado puro".
O cordel continua a motivar, estudos e pesquisas nas áreas de Antropologia, Folclore, Lingüística, Literatura, História,... no entanto, os velhos conceitos de que a literatura de cordel, ou simplesmente, Cordel, é um subproduto popular, permanecem. Atentem para o termo “Literatura de Cordel” ou “Literatura Popular”, usado para se referir ao Cordel. O Cordel é poesia com todas as regras poéticas, tal qual a trova e o soneto. Alguém já ouviu o termo: Literatura de trova, ou Literatura de soneto? Não. O Cordel nunca esteve inserido nas antologias da literatura chamada de “erudita”, “oficial”. Por que?

Tribuna - Como educar e tornar a sociedade preparada para absorver a mensagem da literatura cordelista?
Josué: Primeiro através do currículo escolar. Não só a inserção no currículo, mas, o necessário apoio do governo para criar toda uma estrutura de apoio a impressão, divulgação e distribuição do Cordel a começar pelas escolas e colégios. Projetos de apoio a oficinas de cordel para os professores e/ou alunos. Maior utilização dos meios de comunicação, mas, sem confundir o ouvinte com apresentações de cantorias de repente e xilogravuras com o título de Cordel. Cada coisa no seu lugar.
Tribuna - Em poucas semanas, estreará na Rede Globo a novela Cordel Encantado, que trará em seu enredo um pouco dessa literatura. Isso é encarada de maneira positiva pelo senhor?
Josué: Sim. Toda forma de divulgação do Cordel é positiva e necessária. Com os primeiros anúncios da estréia da novela Cordel Encantado, nós os cordelistas percebemos alguma movimentação, telefonemas de pessoas perguntando a respeito, toda uma energia se ampliando nesse sentido. Por outro lado, eu, pessoalmente, tenho minhas preocupações com a forma de cordel que poderá ser apresentada:
Houve uma pesquisa ou palestras sobre o assunto com cordelistas? Quem? A classe dos cordelistas não é tão ampla quanto a classe dos escritores não cordelistas. Quais as fontes? Os primeiros anúncios de estréia mostram uma cantoria de repentes e imagens de xilogravura, mas e o Cordel?
O cordel é o “gênero de maior vitalidade na literatura brasileira” e como tal deve ser divulgado.

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