sábado, 1 de janeiro de 2011

Ao Mestre Azulão com carinho“ - Todo erro é compreensível, mas a correção desastrosa é imperdoável.

"O Ministério da Cultura, neste ato representado pela Secretaria de Articulação Institucional, no uso de suas atribuições legais, em cumprimento ao disposto na alínea “b”, Inciso I, do Art. 3º da Lei nº. 8.313, de 23 de dezembro de 1991, torna público o edital Prêmio “Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 - Edição Patativa do Assaré” - em todo o território nacional.
“O investimento é de R$ 3 milhões, distribuídos entre os projetos selecionados” Diário Oficial da União.



O Projeto:

Parabéns ao Governo Federal por essa iniciativa. É uma migalha de incentivo para a nossa cultura, mas como diz o dito popular: É melhor lamber que cuspir”.

“...querem roubar a pureza, a nacionalidade de um país, destruindo a sua cultura. O brasileiro, ou qualquer outra nacionalidade, tem amor à sua pátria através também de sua cultura. E não tendo chance de apreciar e participar de sua cultura, é uma pessoa despatriada. Uma pessoa que não tem amor à pátria é que nem cocô na água, não sabe para aonde vai.” Parte de uma entrevista de Mestre Azulão, extraido do fotolog: http://fotolog.terra.com.br/cordelnaescola:153

Com esse projeto, o Ministério da Educação toma a iniciativa de apoiar a realização de projetos relacionados ao mundo dos: "Repentistas e Cordelistas".
Para nós, os cordelistas, parte da verba está destinada a financiar - 80 projetos com valores até sete mil reais cada.
Qual dos poetas que animados com essa novidade, não sonhou com a inclusão do seu projeto na lista dos selecionados? Eu também sonhei. Tanto que enviei o meu projeto. Transformação de um conto dos irmãos Grimm "Os três cabelos de ouro do diabo, em cordel". Anexo ao projeto, enviei o meu currículo literário.

Resultados:
No dia 14 de dezembro de 2010, saiu um edital no Diário Oficial da União, página 18 – “Relação dos projetos classificados”. No topo da lista, com 89 pontos, constava o meu nome: Josué Gonçalves de Araujo/SP.
Difícil foi acreditar. Por que eu, no primeiro lugar da lista? O meu primeiro cordel havia sido lançado em, (não mais que dois anos atrás). Era normal a minha esperança de estar incluído entre os aprovados, e se fosse a ultima posição – 80ª, seria motivo de muita alegria.
Não teria havido algum engano?
No dia 22 de dezembro de 2010, saiu novo edital e houve correção na lista dos aprovados. Agora constava no topo da lista com 90 pontos, o nome de José João dos Santos. Quem? Na verdade, conhecido como o “Mestre Azulão – lenda vida do cordel, com fama internacional. Vale lembrar que na primeira classificação, ele constava na posição 102ª – desclassificado.
Passei então a ocupar a “honrosa” segunda posição, (em boa companhia), mas infelizmente, aquele poeta – Rivani Nasário de Oliveira do Espírito Santo de Olinda - Pernambuco, que também sonhou e que estava na posição 80ª - ultimo dos aprovados da lista anterior, passou para a 81ª, sendo automaticamente (desclassificado). Esse poeta foi o único prejudicado.

Critérios:
 Quais os critérios usados na avaliação que gerou a primeira lista?
 Quais os critérios usados para a correção relacionada ao Mestre Azulão que gerou a segunda lista?
 Quais os critérios de avaliação para realocá-lo no topo com 90 pontos?

O edital de correção foi uma resposta a “grita” de vários poetas cordelistas, inconformados, e com razão, do fato de o Mestre Azulão – (José João dos Santos) - ficar de fora do primeiro concurso dessa natureza.

“Outras distorções lamentavelmente permaneceram. Numa delas, a tese de doutoramento de Aderaldo Luciano, aprovada com louvor na UFRJ, foi excluída, não alcançando sequer a pontuação mínima.
Felizmente, a inclusão de Mestre Azulão atenua em parte os equívocos cometidos.” (extraído do blog: http://fotolog.terra.com.br/marcohaurelio)

Ainda, não tenho resposta para essas perguntas. Temo que essa correção, da forma como foi feita, venha a lançar dúvidas sobre os critérios utilizados na avaliação dos classificados:

Os erros:
 Erraram tanto na primeira avaliação?
 Ou erraram mais ainda na correção?
 A coerência do reconhecimento dos erros que forçaram a realocação de um poeta das últimas posições (com 57 pontos) para a primeira posição, (agora com 90 pontos), não inverteria a ordem dos classificados da primeira lista?
Seria absurdo esperar eficácia dos nossos órgãos públicos, mas eficiência é fundamental. Todo erro é compreensível, mas a correção desastrosa é imperdoável.

Injustiça:
O nosso querido Mestre Azulão não merecia isso! Ele é homem simples e honrado; um poeta sério e autêntico. Eu tenho por mim que, o verdadeiro poeta vive para alimentar a sua alma e isso não se coaduna com a demasiada ambição material, com o poder ou com as angustias do ego.
O resultado do que fizeram e refizeram, de forma dúbia, com a participação de Mestre Azulão nesse concurso, não condiz com o que ele é; com o que ele representa e com o que ele prega.

Minha admiração:
Sonho ir a São Cristovão no Rio de Janeiro para visitá-lo; apertar a sua mão, como se apertasse a mão de todos os cordelistas que povoaram a minha imaginação infantil, nas longas noites.

Minha verdade:
Sem querer ser tartufo ou condescendente, afirmo e ratifico em qualquer tempo, que julgo o projeto - “a tese de doutoramento de Aderaldo Luciano” - de maior importância, para o mundo do cordel, que o meu próprio projeto. Temos muitas obras boas – livretos de cordel – publicadas ou sendo publicadas de norte a sul, mas um projeto como o de Aderaldo é raro. Já dizia Albert Einstein: “não existe um ponto, verdadeiramente fixo no universo, tudo se movimenta e se evolui”. Isso vale, também, para o cordel. Um leitor se emociona e se impressiona com uma obra literária, justamente porque o seu conteúdo lhe parece inédito, além do seu alcance ou imaginação. O poeta autêntico tem obrigação de estar à frente, seguir em frente, ou seja, evoluir. Qualquer forma de temor ou resistência ao “novo” é ausência de pureza da alma e ou autenticidade da sua dádiva poética. A poesia é um instrumento de sublimação da alma humana. É por essa razão que um poeta é um poeta e um executivo é um executivo. O óleo e a água não devem se misturar.


Josué G. de Araujo

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