sábado, 23 de abril de 2011

Mistérios e proezas do Cordel. Minha Avó, O Cordel e Eu.

Avó: Maria Francisca da Silva, (Sá Maria)
Nascida em:
Macaúbas, Bahia, em 15 de maio de 1905,
Filha de: João Pereira da Silva e Maria Francisca da Silva.
Casada com: Manoel Gonçalves de Araujo,
Nascido em: Remédios, Bahia, em 19 de fevereiro de 1891,
Filho de: José Joaquim de Oliveira e Maria Rosa da Luz. (Bisavós)
Filhos de Sá Maria: Eliza, Maria Francisca (Dodó), Antonio, José, Ana, Joaquim, Otávio e Auzelita. Vivos somente: Ana e Otávio.
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Depoimento do neto Josué Gonçalves de Araujo, escritor cordelista da Editora Luzeiro:
Sá Maria,
assim era conhecida a minha avó Maria Francisca da Silva. Teve papel relevante na minha vida literária e provavelmente no meu destino. Foi ela quem, numa noite de lua luminosa, quando ainda não havia energia na cidadela, contou a primeira história de Cordel para nós, que embevecidos, sentados no chão do terreiro, ouvia em silêncio. Acredito que só eu tenha gravado profundamente na alma, as emoções daquele instante mágico. Garoto de apenas 6 anos de idade, não conseguiu dormir naquela noite sonhando com todo aquele cenário de gigantes e heróis valentes e um linguajar estranho – em versos. Hoje sou um escritor cordelista da tradicional Editora Luzeiro Ltda, de onde saiu a história que ela nos contou: "A história do valente João Acaba-mundo e a serpente negra" de Minelvino Francisco da Silva que, coincidentemente residia em Itabuna-BA, onde morava uma filha da minha Avó. Todas as outras histórias contadas por ela estão lá nos livretos, alguns com páginas acidificadas ou manchadas pela ação do tempo, na editora.
Vale lembrar que a minha Avó era analfabeta, mas de tanto ouvir desde criança, as histórias dos livretos de cordel, ela tinha decorado tudo na memória. Influenciada por ela ou provocado pela magia do cordel que ela recitava em versos, passei a amar os livros e me tornar um escritor de cordel. Na primeira história do cordel eu encontrei um portal para um mundo virtual, onde tudo era possível. Onde eu teria ou poderia ser tudo o que não era no mundo real, da seca, da miséria, dos espinhos das lavouras em tempos de colheitas, dos sacrilégios da vida de bóia-fria no Pontal do Paranapanema. Assim era a força desse gênero da literatura em versos e rimas que alfabetizou muito nordestino que ansiava pelo saber. Os cientistas dizem que: “... a natureza sempre dá um jeitinho”, bem assim foi o nordestino diante das dificuldades da sobrevivência: sempre encontrou um beco, um atalho, uma trilha, um jeitinho, pois, de onde deveria vir o suprimento das necessidades básicas, não vinham nunca. Escola e recursos sociais e culturais, o governo, os políticos e os coronéis negligenciavam por conveniência.
O Cordel cumpriu o seu papel. Uma literatura em linguagem fácil, metrificada, rimada, versificada de fácil assimilação pelo povo nordestino do sertão carente dos recursos do conhecimento cultural das grandes cidades. Os escritores cordelistas da geração atual, luta pelo reconhecimento da supremacia desse gênero literário, que sempre ficou a margem da elite da literatura dita erudita, oficial, em razão do preconceito?
Sou eternamente grato a minha avó Sá Maria. Inspirado nela eu escrevi o meu primeiro romance em prosa com 187 páginas: “O mistério da Bruxa de Areia Dourada” onde a personagem "Nhá Maria" é a grande guerreira até depois de sua morte. Um dia vou transformá-lo em cordel. Esse romance deverá aparecer mais com o diferencial, “Em Cordel”.
Ainda sobre essa guerreira:
Sá Maria ganhou do seu padrinho, uma bezerra que ainda estava na barriga da mãe. Com essa bezerra ela fez uma boiada. Os bois foram criados soltos nas caatingas do sertão sem cercas de arame farpado e perambulavam pelo terreiro da casa como se fossem cachorros ou porcos domésticos. Quando os filhos de Sá Maria se largaram no mundo, engrossando as filas dos migrantes da seca, ela vendeu a boiada e partiu para o oeste do estado de São Paulo a busca dos filhos. Comprou uma casa com um grande quintal cercado de balaustres de madeira, bem na cidadezinha de Mirante do Paranapanema. Criou galinhas, cultivou uma horta e era a melhor saboeira da cidade. Fazia o melhor sabão de sebo e soda. Vendia as suas verduras, os frangos e o sabão para os moradores e para as mulheres do bordel, na periferia da cidade. Sá Maria, minha avó sempre foi auto-suficiente. Ela, não lia com os olhos, não escrevia com as mãos, mas usou os ouvidos para assimilar aquela forma de literatura, única fonte de cultura e conhecimento, possível. Dessa forma se tornou a minha primeira professora de literatura popular (oral), quando eu ainda não sabia ler e nem escrever.

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